Sem Fru-Frus nem gaitinhas o mesmo será dizer que se lixe o «politicamente correcto»... Let the show go on!!!!

06
Abr 07

 

Já por diversas vezes tenho mencionado os «loucos» de Lisboa.
Não tenho grandes dúvidas, que há mesmo pessoas loucas, que vagueiam pelas ruas de Lisboa. A loucura é sempre algo de assustador e eu não fujo à regra se disser que também a mim me assusta.
Fico sempre incomodada, com atitudes estranhas, com diferenças de comportamentos…
Os tempos de hoje tornam-nos cautelosos e quantas vezes não damos por nós a espreitarmos a nossa própria sombra.
A existência de maldade sobre certos subterfúgios torna-nos desconfiados levando-nos a utilizar os clichés de apontar o dedo indiscriminadamente e apelidarmos as «diferenças», de malandros, drogados, bêbados, gente sem escrúpulos etc etc… Lembro-me de um destes dias estar na paragem do meu autocarro, aquela minha paragem que tem a particularidade de todas as pessoas serem conhecidas. Temos um cego e o seu cão guia, um casal em que a mulher é a «Chefe-lá-de-casa» (raramente se ouve uma palavra do marido), mais umas amigas do casal e umas amigas da mulher do casal (Chefe-lá-de-casa), que por sua vez são amigas dos pais e dos tios do próprio motorista e claro do próprio motorista, que tratam por «Filho», «Zé» ou «Zé Manel»!
Ou seja tudo uma GRANDE família, que vive na chamada província, nos arredores de Lisboa. Pessoas que ainda gozam do privilégio de viverem em locais onde os vizinhos se conhecem todos uns aos outros…
Naquela carreira de autocarro não existem elementos de perturbação, o mesmo será dizer «loucos» não são conhecidos!
Mas não há bela sem senão…e particularmente nesse dia, quando já lá estava o cego e o seu cão guia, eu e o casal, surge o nosso «louco»…
Deambulou durante uns momentos em nosso redor, carregando umas malas de viagem. Confesso que apesar de estar a ler uma revista, os meus olhos rolavam nas orbitas acompanhando todos os movimentos daquele homem com aspecto de «louco» e que ainda por cima usava uma boina à pintor (ninguém usa uma boina à PINTOR sem que não aparente ser louco!!!)…
Por fim acercou-se e perguntou-me se aquele autocarro nos levava para o destino YXZ, disse que sim…depois percorreu o resto da fila fazendo as mesmas perguntas ao cego e ao casal…
O murmúrio da «Chefe-lá-de-casa» fez-se ouvir « -Deve estar drogado, é maluco».
Depois o nosso «louco» abordou o marido e disse «Olhe tomava-me conta das minhas malas?? Vou ali comprar tabaco…». O homem concordou e ai a «Chefe-lá-de-casa» espumou e sibilou « -Onde já se viu!!! E se tem uma bomba ai?! Não tem dinheiro para comer mas para o tabaquinho já vai??? Meia volta foi drogar-se…».
O marido não respondia e entretanto o autocarro chegou, subimos todos e o homem continuou a guardar as malas, enquanto dentro do autocarro a mulher destilava o seu descontentamento e chamava o marido.
Por fim o nosso «louco» chegou e pediu ao motorista que lhe guardasse as malas na bagageira.
Entrou, e eu pensei e rezei para que ele que se sentasse longe…Claro que não se sentou longe, sentou-se não no mesmo banco, mas no banco ao lado, demasiado próximo para meu gosto.
A conversa da FAMILIA fluía no nosso autocarro e por diversas vezes o nosso «louco» tentou intervir, sendo sempre alvo de olhares  de censura, abanares de cabeça ou de uns «nãos» obrigado!!!
Aqui comecei a ter uma certa pena do nosso louco. Era diferente sem duvida…mas era um pouco injusto aquela agressividade latente.
Neste autocarro há um ritual nos percursos de volta para casa, há sempre alguém que distribui, bolinhos, pasteis de bacalhau, chocolates, rebuçados… pela FAMILIA.
E aquele dia não foi excepção, distribuía-se rebuçados…e o nosso «louco» chegou-se um pouco à frente e perguntou:
 
-Olhe, dava-me um rebuçado?
 
A senhora «Chefe-lá-de-casa» olhou-o de soslaio e enquanto arrumava o saco de rebuçados resmungou:
 
-Olhe era o ultimo…
 
O nosso louco recostou-se e colocou o mesmo ar que tantas vezes vislumbro nas crianças quando alguma coisa não corre bem, um olhar triste e aborrecido…
Aqui já tinha começado a gostar do meu «louco» de Lisboa e sentia já alguma simpatia e empatia por ele…
Estava mesmo quase a chegar ao meu destino quando o meu «louco» me tocou no braço e perguntou:
 
-Olhe, não tem um rebuçado?
 
Respondi:
 
-Não, não tenho…mas tenho uma pastilha. Quer???
 
Ele abanou a cabeça e colocou um sorriso radioso na cara enquanto aceitou a pastilha e me sussurrou um «muito obrigado».
 
É claro que aquilo não foi de «bom tom» e a FAMILIA do meu autocarro deve ter julgado que eu era tão louca como o meu «louco».
 
Mas na verdade sai do autocarro a pensar que talvez gostasse de ser uma «louca», é que um rebuçado ou uma pastilha seria o suficiente para me deixar Feliz e isso tornaria as coisas tão mais fáceis…
 
A Princesa Virtual  deseja-vos uma boa semana e uma boa Páscoa :)
publicado por PrincesaVirtual às 22:29
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